13 outubro 2016

Lido algures...

O toque da campainha provoca uma torrente caótica de vozes estridentes e cadeiras a arrastar no chão da sala. A professora suspende o discurso, o raciocínio interrompido. A ideia paira no ar, incompleta, e esmorece no silêncio súbito da sala, abandonada pela turma, sem sombra de civilidade ou cortesia.

A professora aproveita a quietude da sala agora deserta para arrumar com vagar os seus pertences espalhados na secretária. Consulta mais uma vez o seu horário deste ano, que ainda não conseguiu memorizar. No tempo seguinte estará a lecionar numa sala do bloco oposto àquele em que se encontra. Terá de esperar para outra altura, o cafezinho que tanto lhe apetecia, sentencia com um suspiro. Melhor será pôr-se já ao caminho, que os dez minutos do intervalo passam num rápido e os seus ossos já não lhe permitem valentias. Passou há pouco a barreira dos sessenta – e de serviço leva já mais de trinta e cinco anos.

Uma vida inteira, cisma, enquanto caminha com lentidão e cautela. Lembra-se dos primeiros anos da profissão que escolheu ainda era ela uma menina de tranças. Recorda-se dos quilómetros que palmilhou por todo o país, de quantas madrugadas viveu estrada fora, de mala aviada e uma vontade imensa de exercer aquele ofício, um entusiasmo que lhe enchia o coração e compensava a falta que tantas vezes sentia da sua casa e dos seus.

O percurso ao longo dos corredores é penoso e necessariamente prudente. Ao desequilíbrio traiçoeiro das pernas aliam-se as armadilhas do caminho. Por todo o lado há correrias destravadas sem rei nem roque, há rasteiras, encontrões e boçalidades gritadas. Encostados às paredes, magotes de adolescentes pairam alheados, numa adoração hipnótica e pasmada do telemóvel.

Caminha em permanente sobressalto, como quem atravessa um campo minado. Ouve o toque estridente de entrada no preciso momento em que dobra a última esquina e escassos metros a separam da sala de aula. Ao fundo do corredor os seus alunos confraternizam ruidosamente, num ritual que se assemelha a uma dança tribal primitiva, com gritos e grunhidos, coroada a espaços com sonoros arrotos e gargalhadas boçais. Lá no meio da matula, alguém berra: “fónix, lá vem a estúpida da velha!” e é agraciado com um ramalhete de risos alarves.

Avança mais uns passos contrariados, o coração a encher-se-lhe de um desejo imenso de dar meia volta e sair dali para nunca mais voltar. Para se forçar a prosseguir, procura dentro de si resquícios do prazer que sentia em ensinar, mas só consegue encontrar cansaço e desilusão. Um sentimento avassalador de inutilidade e desperdício percorre-a como um espasmo. Sente-se irrisória e transparente, como um espírito etéreo de professora que agora vagueia fantasmagoricamente numa escola de que tanto gostou, também ela já desaparecida.

1 comentário:

  1. E eis que um menino me diz:
    - Não gosto da escola, não gosto das professoras, não gosto de ti...
    E eu pergunto:
    -Porquê, Luís (nome fictício)?
    Ele responde:
    - Porque não posso fazer o que quero. Esta vida é uma porcaria porque não podemos ter nem fazer o que queremos...
    E eu digo:
    - Sabes, Luís, nesta vida nem sempre podemos ter tudo o que queremos e fazer tudo aquilo de que gostamos mas podemos ser felizes com aquilo que a vida nos oferece de bom... Depois, sempre podes descobrir em ti algo que desconhecias, um "gosto especial" por algum tipo de desporto, pela música... Dá-me um abraço...

    E este foi um dos episódios que marcou o meu dia de trabalho...
    E a noite já pede algum descanso...

    "Another brick in the Wall", grande música de Pink Floyd.


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