20 março 2010

Há mais de 30 anos, colocava uma nota na minha árvore de Natal

Ontem (talvez por não ter pai ou avôs ainda vivos), fui visitar um tio-avô.

Um castiço que mantém a lucidez e me aviva as memórias com expressões que são uma delícia.

O que vi:
- uma dúzia de idosos
- algumas muletas, várias bengalas e um andarilho
- muitos óculos
- poucos dentes
- muita roupa escura
- olhares vagos
- pensamentos distantes

O que retive:
- o sorriso dele ao rever um rosto amigo
- o humor quando lhe lembrei algumas "passagens"
- a alegria de fintar as funcionárias e comer as amendoas que lá deixei, sem que vissem
- a preocupação em chegar à casa de banho antes que seja tarde
- a mão quente que me apertou ao despedir-me

O que me marcou:
- uma funcionária (não sei se enfermeira ou auxiliar...), a amparar um idoso pelo braço mas com fones nos ouvidos e a fazer balões com a pastilha elástica
- o dia cinzento que parecia feito à medida de quem muito trabalhou e merecia contemplar paisagens mais alegres
- a higiene de todo o espaço (incluindo o envolvente)
O que dificilmente esquecerei:
- um casal com roupa de cores um pouco mais vivas, com um cobertor sobre as pernas.
Ele, com óculos à frente de olhos vivaços e atentos.
Ela, com o característico hábito de estar sempre a mastigar, embora sem ter nada na boca (como se estivesse a comer tremoços), exibindo aqui e ali uma "cavaca" no maxilar inferior, que teimou em resistir aos anos.
Ambos, sempre, mas sempre de mãos dadas. Com algumas artroses visíveis sem raio-x, alguns tremores indisfarçáveis, mas havia ali algo mágico - Paixão? Amor? Pena? Amparo? O que importa?

2 comentários:

  1. Fantástica a tua visita (eu confesso k não tenho grande estaleca para isso) e Espectacular a descrição feita (digna de registo numa notícia de rádio ou de jornal)

    Abraço
    Mano

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  2. Texto fantástico,parabéns.Abraço.

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"O recurso ao anonimato é um mecanismo de cobardia e um instrumento de invejas e vinganças, muitas vezes violando a lei. É a transposição para a Internet de um mundo que existe cá fora, mas que até agora ficava dentro da cabeça das pessoas e nas conversas de café."